Stockhausen --> Necrológio
É muito comum (e sábio, diga-se de passagem) o costume alemão de salvaguardar a dor das famílias enlutadas, anunciando os óbitos até uma semana após sua ocorrência.
No que diz respeito à Karlheinz Stockhausen, o anúncio foi feito ontem, 2 dias após seu falecimento (clique aqui para ler o obituário oficial).
Transcendentalices e megalopatias à parte, a obra de Stockhausen se impõem pela criteriosa perícia e incansável criatividade, colocando-o lado à lado com outros 3 grandes nomes de sua geração: Xenakis, Boulez e Ligeti. Sua produção dá testemunho de uma mente laboriosa, empenhada em desenvolver o legado de Stravinsky (politonalidade, polirritmia), Webern (serialismo) e Varèse (multi-timbrismo, ruidismo, approach científico), assimilando a esse legado (e de maneira radical) paradigmas e técnicas oriundas da música modal asiática e africana.
Parametrizado pela obra e pelos ensinamentos de Messiaen (que foi seu professor e também de Boulez e Xenakis), Stockhausen capitaneou experiências estéticas seminais que, somadas à estocástica de Xenakis e ao espectralismo de Ligeti, deram identidade e rumo à música erudita produzida no pós-guerra.
Seja pós-serial, aleatória (Klavierstücke), concreta (Hymnen), eletroacústica (Kontakte) ou poliestrutural (Gruppen), a obra de Stockausen é sempre épica, grandiloqüente e utópica, dando continuidade ao projeto wagneriano de uma gesamtkunstwerk. Toda esta grandiosidade aliás, é paradoxalmente tão virtuosa quanto viciosa, uma vez que reúne eu seu bojo não apenas momentos magistrais de criatividade e domínio técnico mas também outros de autoindulgência megalomaníaca misturada com misticismo.
Seu mega-ciclo operístico LICHT, iniciado nos anos 70 e finalizado em 2004, consiste em sete óperas interligadas, cada qual representando um dia da semana. O ciclo completo dura mais de 29 horas: é, indiscutivelmente, a composição mais longa da história da música, ultrapassando não só todos os limites costumeiros da performance musical como também as possibilidades orçamentárias da maioria dos organizadores de concertos.
O Centro Europeu de Artes de Hellerau, em Dresden, pretendia encenar o ciclo integral de LICHT em 2008, por ocasião dos 80 anos de Stockhausen. A produção estava estimada em torno de dez milhões de euros! Se o projeto não for engavetado, o que antes foi pensado como celebração, será certamente agora uma justíssima homenagem póstuma.
Quanto ao impacto cultural de suas idéias e de sua música, vale lembrar que, no caso dos Beatles, muito mais do que ter aparecido na capa do Sargent Pepper's, sua influência se fez presente em TODO O PROCESSO de gravação, uma vez que é de perfil stockhauseniano o uso do estúdio enquanto instrumento musical!
No "White Album" encontramos ainda a notável "Revolution 9" de John Lennon, sintoma explícito dessa enorme influência, que atingiu e orientou ainda as experimentações de artistas tão distintos quanto Miles Davis, Frank Zappa, Kraftwerk, Brian Eno, Sonic Youth, Aphex Twin e Björk ("Vespertine" e "Medúlla" estão repletos de elementos oriundos de "Tierkreis" e "Stimmung", respectivamente).
Sobre a estúpida controvérsia acerca do 11 de Setembro, reproduzo aqui na íntegra a nota escrita por Stockhausen 8 dias após o atentado:
"After returning from Hamburg I find false, defamatory reports in the press.
I am as dismayed as everyone else about the attacks in America. At the press conference in Hamburg, I was asked if MICHAEL, EVE and LUCIFER were historical figures of the past and I answered that they exist now, for example Lucifer in New York.
In my work, I have defined Lucifer as the cosmic spirit of rebellion, of anarchy. He uses his high degree of intelligence to destroy creation. He does not know love.
After further questions about the events in America, I said that such a plan appeared to be Lucifer's greatest work of art. Of course I used the designation "work of art" to mean the work of destruction personified in Lucifer. In the context of my other comments this was unequivocal.
I cannot find a fitting name for such a "satanic composition". In my case, it was not and is not my intention to hurt anyone. Since the beginning of the attack onward I have felt solidarity with all of the human beings mourning this atrocity.
Not for one moment have I thought or felt the way my words are now being interpreted in the press. The journalist in Hamburg completely ripped my statements out of a context, which he had not recorded in its entirety, to use it as a vile attack against my person and the Hamburg Music Festival.
This whole situation is regrettable and I am deeply sorry if my remarks were misconstrued to offend the grieving families of the brutal terrorist attacks on New York City and Washington D.C. I will continue to keep the victims of this outrage in my prayers
Karlheinz Stockhausen
September 19, 2001 -"
Entrevista rara:
Trecho da palestra 'Four Criteria of Electronic Music', ministrada em Maio de 1972 na Oxford Union:
Vídeo experimental para "Kontakte":
Vídeo experimental para "Hymnen":
"Helicopter String Quartet": uma extravagância sensacional!
Trecho de ensaio de Gruppen para 3 orquestras. Lucerne Hall, Suíça. Orquestra Acadêmica do Festival de Lucerne, sob a regência de Jean Deroyer, Peter Eötvös e Pierre Boulez:
Vídeo do arquiteto Armando Alvarez-Velázquez, exibindo seu portfolio ao som da PIETÀ (trecho de Tuesday from Light):

"Requiem for Karlheinz Stockhausen", de Celmar Semoy:
Trecho da palestra 'Four Criteria of Electronic Music', ministrada em Maio de 1972 na Oxford Union:
Vídeo experimental para "Kontakte":
Vídeo experimental para "Hymnen":
"Helicopter String Quartet": uma extravagância sensacional!
Trecho de ensaio de Gruppen para 3 orquestras. Lucerne Hall, Suíça. Orquestra Acadêmica do Festival de Lucerne, sob a regência de Jean Deroyer, Peter Eötvös e Pierre Boulez:
Vídeo do arquiteto Armando Alvarez-Velázquez, exibindo seu portfolio ao som da PIETÀ (trecho de Tuesday from Light):

"Requiem for Karlheinz Stockhausen", de Celmar Semoy:
Marcadores: musica erudita, stockhausen





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